VIAGEM INAUGURAL

Pouco antes de deixarmos a garagem do apartamento de Pedro, em Recife, o filho dele, Lucas, 10 anos, fez questão de fotografar o carro. Era mais uma das muitas fotos de recordação que nos foram mostradas nas horas em que resolvemos as questões legais e mecânicas relacionadas à compra. Achei o Toyota Bandeirante, motor Mercedez diesel, ano 1988, após uma longa procura, conferindo pela internet os classificados do Jornal do Comércio de Pernambuco. Há meses eu buscava carro igual na Bahia e, aconselhado pelo mecânico Piu-Piu, que tem uma oficina especializada em jeeps e veículos off road na Boca do Rio, Salvador, tinha estendido minha busca a outros estados. Já encontrara opções em São Paulo, Paraná e Brasília, mas aquela proposta me pareceu a mais concreta.

Com o jeep vieram algumas histórias interessantes. Uma delas, Pedro contou quando perguntei sobre os antigos proprietários. Há oito anos, após algumas dificuldades em viajar a praias e fazer passeios com um carro urbano, ele resolveu procurar um jeep Toyota na cidade pernambucana de João Alfredo. É uma cidade em que, pelas condições extremas de relevo, solo e clima, o modelo de carro passou a predominar na frota. Logo que chegou na cidade, ficou sabendo que Pedro Que Corta Cabelo estava vendendo um. Então foi até a “barbearia” do profissional, cuja função estava incorporada ao nome. Encontrou Pedro Que Corta Cabelo aparando a carapinha de um cliente. Ao ver o candidato a comprador, o barbeiro fez questão de ir mostrar logo o carro. Deixou o cliente na cadeira. Pedro, o comprador, estranhou, mas foi ver o carro. Conferiu o motor, a lataria, a procedência e os documentos. Aceitou a oferta de dirigir um pouco pela cidade e resolveu fechar o negócio, o que foi feito em uma agência bancária no município. Não levou menos do que quatro horas. Antes de partir para Recife, deixou Pedro Que Corta Cabelo no local de trabalho. Na cadeira, paciente, o freguês esperava.

Acertamos a transferência, trocamos óleos e filtros, substituí dois pneus e, nesse tempo, ouvi outras histórias do jeep, neste momento mais um personagem do que uma máquina. Antes de fechar negócio, Pedro me contou que só estava vendendo o carro porque iria mudar com a família para o Canadá, para onde não foi possível levá-lo. Motivo de várias reuniões familiares, a venda do companheiro de tantas viagens só foi aceita com a condição que ele não fosse desmanchado para a adaptação como lotações, indústria próspera em João Alfredo e que consiste num processo semelhante de alongamento ao utilizado para fazer limousines. A última condição, Pedro me fez: se eu fosse vender o jeep, que antes fizesse a oferta a ele.

Então partimos de noite no jipão e a viagem foi realizada toda pela orla, incluindo estradas de terra e alguma lama pra completar o test drive. Porto de Galinhas, Tamandaré, lindas praias em Pernambuco e Alagoas, encontro com meu irmão mais velho, Elcio, em Maceió, travessia da foz do Rio São Francisco em uma pequena balsa, uma longa estrada de terra e a chegada na Barra dos Coqueiros e na bela e nova ponte da capital sergipana, encontro com mais um irmão e uma irmã e o caminho já conhecido para Salvador pelas balsas e pela Linha Verde.

A primeira viagem do jeep foi ótima. Não deu o menor trabalho, veio bem tanto no asfalto quanto fora dele. Lucas me pediu fotos por e-mail para ele saber como está o “irmão mais velho”. Mandei. O carro está na oficina, fazendo chaparia, depois vai passar por um check up com Piu-Piu. É muita responsabilidade adotar um personagem com tantas histórias, mas vou me esforçar para não deixar de criar novas. Pode ficar ligado, Lucas.

 

PS Tive que voltar a Aracaju na semana seguinte. Desta vez foi para a posse do meu irmão, Edson, como diretor-geral da Embrapa em Sergipe, mas isso é uma história para a próxima postagem, com direito a trechos de discurso e foto com o blazer que não saía do armário há mais de um ano.

Diogo Tavares



Escrito por Diogo às 21h04
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