Este não é um país de Dungas

A Seleção Brasileira de Futebol conseguiu ontem um bom empate diante da Argentina, jogando em Minas, num estádio lotado, com direito a show de Jota Quest e Skank e Hino Nacional com Gal Costa. Se há algo estranho neste evento, não é apenas o caráter festivo ao melhor estilo Tio San. É estranho também e de forma pertinente considerar um empate com a Argentina em casa bom resultado. Mas para um time que personificou tudo aquilo que não queremos, aquilo que não nos faz ter orgulho de ser brasileiros, a força burra, a riqueza arrogante, a pobreza de espírito, foi um bom resultado.

Dunga se destacou na Seleção Brasileira, como jogador, pelo futebol objetivo, sério, de eficiência sem brilho, de resultado sem beleza. Com ele, ganhamos a Copa em que jogamos o futebol mais feio. Mas não nos enganemos: a história registra fatos e é escrita pelos vencedores. Então vencer é fundamental. Acontece que quando colocamos a objetividade acima da própria alma nos tornamos falsos e perdemos a capacidade de vencer. Foi esta Seleção que vimos jogar nas últimas três partidas. Um time sem talento e criatividade, preso a um roteiro insosso. Nem mesmo a mais prática das seleções européias é capaz de algo tão enfadonho e a Eurocopa tem comprovado isto.

Nossos noticiários repetitivos, banhados a sangue, já não nos chocam. E choca menos ainda por uma repetição de fórmulas em que muda-se apenas nomes e imagens. Chega-se ao extremo de reproduzir os mesmos chavões como se fossem grandes invenções. Na imprensa burocrática, nas empresas engessadas por fórmulas de eficiência, na política pragmática, não há nada novo que nos surpreenda e fascine. Os políticos roubam e ficam impunes, sem novidade. Pretos pobres morrem. O Haiti é aqui, e daí? A verdade é que estamos nos tornando um país de Dungas, onde importam os fins e não os meios, mesmo que nossa alma esteja sendo corrompida.

Então, vendo o time brasileiro jogar, sob coro de “Burro” e “Adeus Dunga”, me veio um sopro de esperança. Não somos coletivamente acomodados. Queremos festa, mas queremos motivo para festa. Não estamos todos impassíveis diante daquilo que nos oferecem como a única alternativa, mesmo que seja através de TV digital e em alta definição.

Não, não somos um país de Dungas ou de anões do Orçamento. Na platéia, apagado e como parte do show capitaneado por Ricardo Teixeira, Pelé deixa de representar exatamente aquilo que foi. Com seus pés negros de interiorano, com pés de milhões de Garrinchas nas várzeas e becos de favelas, construímos um país vencedor, não apenas por ganhar copas, mas por inventar sua própria forma de jogar o esporte britânico. Mostramos ao mundo a ginga e a alegria, o drible e a infinita capacidade de improvisar. Nos tornamos referência e unanimidade na África miserável, no Oriente Médio muçulmano, na China comunista, na envelhecida Europa e na sectária América. Fomos admirados e, apesar das tentativas, nunca copiados. Aceitar perder isso com indiferença, isto sim, é terrível. Numa análise mais ampla, se não soubermos valorizar nosso diferencial competitivo continuaremos a ser eternamente um país do futuro. E, do jeito que vai, nem mesmo o futebol dos dará alento.

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Diogo Tavares



Escrito por Diogo às 10h00
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