VENDE-SE UM DIPLOMA DE JORNALISMO 
Vende-se um diploma de jornalismo. Não é muito novo. Tem vinte e poucos anos de uso. Serviu bem até aqui, com ética, respeito e, embora não tenha rendido muito dinheiro, deu pra sobreviver. Mas custou caro. Anos de estudo, noites insones, ralação em horário dobrado, parentes alugados, livros comprados, toneladas de xerox, mensalidades escolares, multas por mensalidades escolares atrasadas (para uns crédito educativo) e até missa e festa de formatura. Por motivo de força maior e profunda precariedade, vende-se por qualquer preço. Aceita-se vale transporte, seguro desemprego ou um cafezinho e pão com manteiga. Também troca-se, sem volta, por um certificado de curso de mestre cuca. No início, jornalismo não era profissão, era diletantismo. Vindos de outras áreas, principalmente – que coisa interessante – das escolas de direito, os jornalistas não recebiam salários. Os mais necessitados trocavam elogios nas colunas tipografadas por pratos de comida, os remediados bebiam de graça e os abastados faziam de suas palavras a garantia de empregos públicos. O paraíso para os coronéis da época e uma desgraça para o Zé Povão que quisesse denunciar qualquer abuso sofrido. A profissionalização do jornalismo, principalmente graças aos cursos superiores e à obrigatoriedade de diploma, levou para a redação um outro tipo de postura, deixou claro que literatura é diferente de reportagem, livrou o repórter da contaminação da fonte, criou uma “cozinha” crítica de redatores e editores com salários garantidos e comprometidos, bem ou mal, com o produto final da informação. Se o jornalista não era totalmente independente, não precisava vender anúncio durante a “reportagem” e tinha por obrigação ensinada nos bancos da academia ouvir os dois lados da questão. Graças a isso, a este novo jornalismo, a imprensa se fortaleceu, fortalecendo também os meios de comunicação. O país se redemocratizou, escândalos vieram à tona, a sociedade ganhou voz crítica e fiscalização pública. Se a intenção do regime militar era ampliar o controle, a obrigatoriedade do diploma foi um tiro que saiu pela culatra e ajudou a acabar com o próprio regime de cerceamento dos direitos civis. Isto tudo, todo o avanço e consolidação da liberdade responsável de imprensa, o Supremo Tribunal Federal jogou no lixo ao acabar com a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. É como dar aval para que as redações se tornem terra de ninguém e dar às empresas e aos empresários da área carta branca para contratar capachos, desde que não totalmente analfabetos, por salários aviltantes. E o que fazia a Corte Suprema do Brasil enquanto jornalistas eram presos, torturados e buscavam exílio? E o que fazia a casta togada quando a corrupção tomava conta de todos os níveis de governo? Do seu pedestal, o que fazem hoje para acabar com a tortura, a prisão arbitrária, a impunidade, a imunidade, a intolerância e outras mazelas do país?

Cozinheiro sem ética não lava as mãos, oculta ingredientes, copia pratos, falsifica cardápios
A ameaça é real e o retrocesso pode ser terrível para a sociedade civil. Quando o Supremo simplesmente cassa o diploma de jornalismo, ele se coloca servil do lado das empresas de comunicações, quase todas nas mãos de políticos inescrupulosos e empresários gananciosos. E isto fica claro na Carta ao Leitor da Veja, onde a revista, de forma vergonhosa para seu próprio passado, elogia a fala do ministro do Supremo Gilmar Mendes ao comparar a profissão de jornalista à de chef de cozinha. Cozinheiro sem ética não lava as mãos, oculta ingredientes, copia pratos, falsifica cardápios. Se a escola não torna ninguém mais ético, a ausência dela certamente estimula a ignorância, o oportunismo e a ilegalidade. Se o Supremo quer insistir em sua tese desregulamentadora, então porque não acaba com a casta de direito diplomado dos seus membros e abre aquela casa a todo e qualquer brasileiro que se mostre competente e merecedor de mordomias e salários de marajás, pois seus membros são inacessíveis e insensíveis como tal. Quando o Supremo interpreta a Lei e a Constituição como interpretou, enfraquecendo a imprensa, que é os olhos, ouvidos e, principalmente, a voz da população, ele vira as costas para o povo e se traveste como um dos piores poderes da nação. Um poder formado por intocáveis, sobre os quais nem mesmo o voto soberano do povo influi, uma casta de senhores feudais com seus trajes medievais prontos para definir de modo imperial o destino e o fim de seus súditos. Ave, Gilmar, o senhor e seus pares estão prestes a conseguir o que nem mesmo a ditadura militar conseguiu: criar uma imprensa mais submissa e desacreditada. Diogo Tavares
Escrito por Diogo às 19h13
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