Minha pátria é minha língua

A vida é um pêndulo. Eu andava meio chateado com as notícias. Então fui visitar o Museu da Língua Portuguesa e, se o mundo não melhorou, melhorei eu. Viajar no texto de grandes poetas e grandes poesias é deliciosamente inspirador, mas é interessante a conclusão de que acima até do nosso país e das nossas leis está a nossa língua. Sem ela não hino, julgamento ou sentença. Também não há história, presente ou futuro. Nossa língua, maior, jamais será injusta por si. Não fazia parte da seleção de textos, mas é inevitável, ao passar pelo museu, pensar na letra de Caetano Veloso: minha pátria é minha língua. Ela é minha origem, minha memória e meu testamento. Podemos aprender outras, mas a nossa língua mãe faz parte do nosso pensamento, está no DNA da nossa relação com o mundo, ela nos ensinou a perceber e interceder naquilo que nos cerca. Ela é nossa casa e nossa plataforma de lançamento. Nossa célula e nosso universo. Nossa realização, mesmo com o corpo acorrentado, com a boca amordaçada ou sem as mãos. Como pensou Herzog ao ter os ossos das mãos quebrados pelo torturador: “Ele acha que eu escrevo com as mãos”. Nossa língua, essa sem hierarquia, classe, sempre reinventada, é nossa liberdade.

Diogo Tavares



Escrito por Diogo às 13h23
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Marcartismo

à brasileira 

Na primeira noite eles se aproximam
e colhem uma flor de nosso jardim
e não dizemos nada.
Na segunda noite já não se escondem:
pisam as flores, matam nosso cão
e não dizemos nada.

Até que um dia o mais frágil
deles entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua e, conhecendo nosso medo
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

Vladimir Vladimirovitch Maiakovsk
* Georgia, Rússia – 19 Julho 1893 d.C.

 

Ficou conhecida como a lista negra do macartismo, ou caça às bruxas, ou o combate ao terror vermelho, o episódio da história dos Estados Unidos em que atores, diretores, roteiristas, funcionários do governo e outros supostamente simpatizantes do comunismo foram vítimas de descomunal violência institucional. Bastava a simples suspeita para o cidadão ter sua vida devassada, com quebra de sigilos e direitos, e ser colocado à margem da sociedade, impedido inclusive de trabalhar. A história é muito bem contada no filme “Testa de ferro por acaso”, com Wood Allen, onde o protagonista assume a autoria de obras de roteiristas incluídos na lista negra. Faço esta introdução antes de voltar a dizer que, apesar disso incomodar algumas pessoas e parecer piegas, me sinto realmente a cada dia mais envergonhado de ser brasileiro. Estamos cada vez mais perto dos péssimos exemplos da história e cada vez mais distantes das boas intenções.

Esta semana, apesar da amenização geral nos noticiários sobre a absolvição do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci e de seu assessor de imprensa, Marcelo Netto, da acusação de quebra de sigilo dos dados bancários do caseiro Francelino Costa, uma coisa me chamou atenção. E estava na imagem, não no texto. Era a figura do caseiro, sentado, sozinho, terno emprestado pelo advogado maior do que o corpo franzino, alquebrado como ficam os desempregados, desvalidos e desesperançados, já que vive de bicos e tem dificuldade de encontrar novo trabalho desde o escândalo, semblante preocupado como réu, embora vítima. Ao contrário do caseiro, nenhum dos acusados precisou comparecer à sessão do Supremo.

Sim, estamos chegando num estágio em que defender a verdade e a justiça configuram um grave risco, quase um crime. Tudo que o caseiro fez para virar um párea foi confirmar que viu Palocci freqüentar uma mansão utilizada por lobistas. Daí sua vida descambou e o subalterno do ex-ministro, o então presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, tratou de buscar na conta bancária do caseiro provas que o desacreditassem como testemunha. Achou que viu um depósito ilegal, mostrou ao superior e o assessor deste tratou de divulgar na imprensa. Não conseguiu o objetivo, não havia ilegalidade na conta do caseiro e sim no ato dos guardiões dos dados. Os principais acusados renunciaram na época. Agora foram inocentados.

Como vamos ensinar nossos filhos a falar a verdade, se quem o faz é punido? Os exemplos são muitos. Recentemente, a verdade virou pecado na Receita Federal, com a secretária e dezenas de trabalhadores afastados das suas funções por não aceitar mentir ou acatar ingerência política em funções técnicas. Isso tudo não pode ser banalizado. Não é por acaso que o mesmo relator da cassação do diploma de jornalismo, Gilmar Mendes, aparece na sugestão de inocência de Palocci. É um processo sistemático de intimidação e alienação da sociedade civil.

Causa estranheza também a não absolvição de Mattoso junto com Palocci e Netto. Numa analogia exagerada, mas justa, é como condenar o diretor do campo de Auschwitz e não o comandante da SS, condenar Goebbels, o mentor da propaganda nazista, e inocentar Hitler. Quem manda e detém o poder de interferir, intimidar, ameaçar, é mais responsável do que o carrasco, pois é dele e não do algoz que parte a intenção.   

Estou cada vez mais desiludido com o país e espero que me compreendam, mas ainda acredito na Nação, na nacionalidade em língua e cultura, mais fortes do que o estado aparelhado, cerceador e injusto que tentam nos impor. Escrevo isso, embora indignado, com a consciência tranqüila de quem acredita que isso precisa ser dito. Como cidadão, não posso aceitar que o Brasil do Século XXI utilize mecanismos de repressão similares aos dos Estados Unidos dos anos 50, ou da União Soviética, ou da China e de outras nações totalitárias através dos tempos. Não posso aceitar listas negras, devassas ilegais ou ocultações de atos ilícitos por orientação política. Não posso admitir que crime é relativo. Não podemos. Senão seremos todos cidadãos intimidados, com vestes emprestadas, vítimas daqueles que um dia deixamos entrar em nosso jardim.   

PS Mano velho, sinceramente gostaria que o conceito “Brasil, ame-o ou deixe-o” tivesse morrido com a ditadura militar. Mas, apesar do tom, não desisti do nosso país.  

Diogo Tavares

 



Escrito por Diogo às 13h21
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Globalização paulista

Duas venezuelanas agradecem ao cara que deu guarita, dois africanos tentam passar um fax na lan house, “índios” bolivianos tocam, cantam e dançam numa esquina, uma família de coreanos com uma criança de colo parece desesperada no frio anoitecer e eu ouço a palavra “passaporte” enquanto passo por eles, moradores de rua de todas as procedências se reúnem para disputar um sopão, um rapaz me chama para assistir vídeo erótico em uma cabine por R$6. O centro de São Paulo é a globalização da pobreza, é o underground do mundo de oportunidades. Passo por uma farmácia e vejo a placa: “Promoção: Viagra R$45”. Lamento não estar com minha terceira máquina fotográfica.

Nada me impressiona demais, pois passei a adolescência em Copacabana. Lá fiz algumas boas fotografias com minha segunda máquina fotográfica. Relembro meu dia, tão curto que acho que o meu relógio biológico foi contaminado pela garoa paulistana. No cruzamento da Ipiranga com a Avenida São João olho pra o Bar Brahma e penso que também sou um pouco novo baiano. Um velho brasileiro que luta em manter o olhar de criança. A garoa faz uma bela composição com as luzes da cidade e eu não estou com minha segunda ou minha terceira máquina fotográfica. A segunda foi uma Cannon, a terceira uma Nikon. Isso me faz lembrar, com um grande pensamento positivo, do fotógrafo e poeta Damário Dacruz. Então, escrevo no oásis do meu quarto de hotel, antes que o sono me enfraqueça a memória. Sim, como costuma a dizer o amigo Damário, não tenho minha segunda ou minha terceira máquina fotográfica. Nem Cannon, nem Nikon. É neste ponto que alguém sempre pergunta sobre a primeira máquina fotográfica e Damário faz uma pausa dramática, como eu faço mentalmente agora. E responde sutilmente o que eu escrevo explicitamente: a primeira é esta, que tem nossos olhos como lentes, que carregamos desde que nascenos e que permite que revelemos imagens sem papel ou computador, sem lenço ou documento, imagens emocionantes, transformadoras, esclarecedoras, redentoras, imagens que podem ser tão eternas quanto a vida.

PS Antes de viajar, espero poder captar algumas imagens com minha quarta máquina fotográfica.

Diogo Tavares



Escrito por Diogo às 11h15
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