A nova missão do delegado 
Convidado pela amiga e ex-colega de trabalho Olívia Soares para avaliar um vídeo de divulgação, almocei na terça-feira desta semana, em São Paulo, com o tão falado delegado Protógenes. No dia seguinte ele iria acabar com um mistério de meses e anunciar sua filiação a um partido político, no caso o PC do B. O exemplo de Protógenes, principal agente da Operação Satiagraha, da Polícia Federal, é outra amostra daquilo que tem se tornado recorrente nos meus textos. Ou seja: o alto preço que pode ser imposto no Brasil a quem age da maneira certa e ignora interesses dos pilotos, tripulantes e passageiros clandestinos deste imenso avião chamado governo. Quando as investigações de Protógenes levaram à prisão do investidor e banqueiro Daniel Dantas, ao invés de parabéns, o que se viu foi uma forte e organizada retaliação contra o policial. De agente da lei, o delegado passou a ser visto como suspeito de crime e ter sua vida profissional e pessoal devassada. Afastamento sumário das funções, imposição de silêncio e ameaças de morte extensivas à família são algumas das práticas de que foi vítima. A vida dele, de repente, virou de cabeça pra baixo. Colegas se afastaram, amigos ficaram com medo de ser tragados pela onda de perseguição, filhos e mulher protagonizaram dramas sem precedentes. É neste momento, quando ninguém queria ser visto com Protógenes, que entra Olívia, passional, destemida e teimosa como poucas pessoas que conheço. Junto com as também jornalistas baianas Patrícia e Zoraide, Olívia tratou de organizar de modo voluntário a comunicação de Protógenes. Adotando as palestras pelo país como meio de sobrevivência, Protógenes redescobriu sua terra natal Bahia, compareceu ao Dois de Julho, colocou uma fitinha do Senhor do Bonfim no pulso e consolidou sua alternativa de trabalho e vida pela via política. Apesar de também ter comparecido ao jantar com a cúpula do PC do B em que o “casamento” foi comemorado, já que a insistência de Olívia é notória, vejo esta definição com certa reserva cética, talvez resultado de várias décadas de jornalismo, da observação de políticos e partidos de perto, da análise tranqüila do que geralmente está um pouco abaixo do óbvio. Não vou aprofundar uma análise política, pois não é esse meu objetivo inicial. O fato é que, enquanto Daniel Dantas passa o final de semana em sua ilha particular na Bahia, perdem as instituições democráticas, a Polícia Federal e o cidadão de um modo geral. Não perdem com a estrada de Protógenes na política partidária, mas com a imposição deste caminho a ele. Tão importante quanto quadros bem intencionados disputando eleições, é termos cidadãos plenos em direito e deveres, exercendo a profissão com dignidade, seriedade e correção, com a tranqüilidade de quem tem o estado como guardião da Justiça, jamais perseguidos por agir conforme a lei. É porque ainda existe essa bandeira, em princípio elementar, que não comemoro simplesmente a nova missão do delegado. Preferia vê-lo prendendo meliantes que emperram o desenvolvimento econômico e social do país, que ampliam a injustiça, que manipulam pessoas e leis, que se utilizam de um mandato ou um cargo público para obter benefícios pessoais a custa da população, que com ganância insaciável destroem a vida e a esperança. Mas, como ainda existe esta bandeira e como é nas vítimas que mais se fortalece a necessidade de transformação, me resta, caro Protógenes, neste momento que testemunhei por acaso, desejar boa sorte. http://www.youtube.com/watch?v=1t0IWMaCpqw Diogo Tavares
Escrito por Diogo às 20h30
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