DUAS VIAGENS

EM UMA

 

Se a vida lhe der limões, faça uma caipirinha.

(frase minha mesmo)

 

Viagens são sempre momentos de revelação. Algumas, como minha estada de quase um mês no Centro de São Paulo, descortinam uma realidade sem cartão postal, uma imersão na alma da cidade dos outros. Conheci uma São Paulo dura, principalmente com os forasteiros remediados, uma metrópole de vidas cinzentas como cimento, de olhar pragmático, inexorável, de uma espécie de conformismo que não comporta em si acomodação, mas a busca incansável do óbvio. Sobreviver é fundamental, enriquecer é a meta. Entre um e outro extremo vive a maioria da população. Não há criatividade, charme, mistério ou encanto nisso, pois o paulistano é previsível como sua cidade, seus horários de metrô, sua programação de cinema, seus rodízios de pizzas e carros, seus engarrafamentos de trânsito. E quando a natureza não colabora e a chuva dissolve algumas certezas, essa gente de Sampa não entra num boteco para beber tranquilamente uma cerveja, para jogar conversa fora enquanto espera as coisas melhorarem. Não, em sua lógica de que a vida tem um sentido determinado, imutável, inquestionável e urgente, eles encaram qualquer contratempo quase como um diagnóstico de câncer. Superá-lo o mais rápido possível é praticamente a diferença entre a sobrevivência e a morte. Olhar para a legião de mendigos sob marquises, observar os guetos de africanos e bolivianos, ouvir a proposta triste das prostitutas velhas nas portas das boates decadentes é quase como deparar com o alerta que a cidade dá a quem relaxa e se esquece da lógica de que você é aquilo que você tem. Se há beleza, não é fácil ver e por isso a Sampa de Caetano Veloso é a mais completa tradução. Com tanta dureza, o bonito em São Paulo brota invariavelmente de onde não se espera, como uma flor no asfalto.

Há também viagens que são de redescoberta, de nostalgia, mas que podem ser igualmente reveladoras. Aqui se insere minha temporada no São Sebastião do Rio de Janeiro e explica porque o jeito com que fui forjado se encaixa melhor com São Salvador do que com São Paulo. Por via das dúvidas e diante de tantos santos é melhor dizer amém e fazer o sinal da cruz antes de prosseguir. Da convivência e das reminiscências partilhadas com Edna, minha irmã mais velha, aos passeios pelas ruas da Tijuca, Copacabana e Niterói, refiz em poucos dias um roteiro trilhado em muitos anos na minha infância e adolescência. A casa que é minha mais antiga lembrança de lar ainda está lá, numa vila tijucana, a duas quadras de onde mora hoje minha irmã. Um dos dois imóveis, que têm acesso por um longo corredor, está em obras. Há um entra e sai de trabalhadores e eu penso em aproveitar a chance para fazer uma visita. O muro na entrada, do lado direito, foi o que meu irmão mais velho, Elcio, pulou para fugir de casa e dormir sobre o telhado da igreja vizinha. No muro do lado esquerdo da casa, subíamos, eu e meu irmão Edson, para olhar o pátio de um colégio. Lembro particularmente do cheiro de terra molhada que se espalhava pelo quintal quando chovia, da farra que foi uma vez limpar a cisterna, de besouros em caixas de fósforo e da invasão de formigas de asa nas noites distantes, da área que minha mãe lavava toda semana e onde quebrei literalmente a cabeça duas vezes, uma caindo de uma bacia colocada sobre a máquina de lavar, outra escorregando no chão ensaboado e indo de encontro ao muro. Havia a geladeira que dava choque, o jiló que virava elefantinho com pernas de palitos, a escada com gradil de tubos de metal onde nos pendurávamos, o gosto de berinjela à milanesa, o som que partia da vitrola portátil Philips no quarto das meninas. Meu irmão ia pra debaixo da cama, colava etiquetas no estrado que viravam comandos e aquela era sua nave espacial. Não me deixava pilotar e eu tinha que aguardar pacientemente ao lado dele para desembarcarmos em Marte. Mas não, os outros mundos teriam que esperar, pois nossa mãe gritava que o almoço estava na mesa.

Não muito distante da vila, onde hoje está uma estação do Metrô, fica a Praça Afonso Pena. Meu pai nos levava ali nas tardes de domingo para passear, andar de bicicleta e comer pipoca ou algodão doce. A praça ficava bem abaixo do nível da rua e nos paredões laterais que descíamos, sob as calçadas, havia galerias ocupadas por lojas, creio que jornaleiros, sapateiros e consertadores de coisas. Tudo tinha conserto naquela época. Acho que havia também um laguinho, mas não tenho certeza, pois depois do Metrô a praça mudou e ficou quase no nível da rua. Incrível, mas ainda há crianças com pais, bicicletas e vendedores de pipoca e algodão doce. No caminho fica o clube do América, cuja piscina ajudávamos a lotar nos sábados de verão. As Casas da Banha agora são McDonald’s e a confeitaria Regina agora é Trigus, mas compro pão quentinho lá de manhã cedo como não fazia há muito tempo. Para completar, fuço documentos e fotografias antigos que foram parar na casa da minha irmã depois da morte do nosso pai e encontro minha carteirinha do América e outras relíquias, como a identidade da maçonaria do bisavô Augusto. Lendo uma certidão, acrescento o tataravô paterno José Diogo Tavares à árvore genealógica que conheço.  

Em Niterói, no bairro de Icaraí, vou mostrar o carro a um interessado na compra. Viagem perdida no presente, mas lá está o prédio onde moramos após voltar de Brasília e o apartamento onde jogávamos “patacobol”, derrubando abajures, objetos decorativos e pedaços do gesso do rebaixamento do teto. Lá está a praia das primeiras peladas e o mar onde devo ter pego imunidade para várias doenças contagiosas.

Em Copacabana, a festa da conquista dos Jogos Olímpicos de 2016 fica em segundo plano, pois ali está, na frente da praia, o colégio Cícero Pena. Da janela da sala de aula, no segundo andar, podíamos ver as areias cheias de gente e o mar azul. Uma tentação. Por ela joguei as pastas dos amigos Antonio e Juan muitas vezes nas fugas para matar aulas. Não é por acaso que os dois acabaram reprovados na sexta série e eu por muito pouco não tive o mesmo destino. 

Minhas memórias estão nas ruas e nenhum assaltante pode roubá-las. Nenhuma reurbanização pode removê-las. Busco organizar o tempo para poder ver os amigos antigos e lá estão eles, completamente mudados, mas na essência comungando de um passado quase sempre feliz em comum. Muito é o tempo, a poeira da estrada, as cicatrizes, mas por um momento me sinto em casa, grato pela simples existência destes lugares que eu não sabia que carregava comigo de modo tão intenso. Agora tenho certeza de que nunca deixarei de levar comigo estas ruas e construções, assim como as ruas do Centro de São Paulo e o velho Hotel Continental, não como fotografias, mas com o sentimento de quem momentaneamente para, olha pra traz e, antes de retomar o caminho, agradece por essa incomparável dádiva chamada vida.

Diogo Tavares



Escrito por Diogo às 11h29
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